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História de OsacoPrefácio [ Topo ]Estávamos na semana da emancipação do município de Osasco, no ano de 1989. Trabalhávamos no Museu Dimitri Sensaud de Lavaud, e era para lá que os estudantes corriam em busca da história da cidade. A casa havia sido reaberta em setembro do ano anterior, e os documentos e as fotografias não haviam sido tocados. Ou seja, não havia a organização histórica do pouco acervo disponível. Assim, os alunos não tinham como consultar e os que lá estavam para servir eram novos na casa, e não tinham como responder a tantas perguntas sobre a história da cidade. Comecei a investigar a documentação que havia no arquivo de aço. Pouco ou nada encontrei - e menos ainda havia que fizesse sentido para subsidiar estudos escolares. Lembrei-me da minha cidade natal, Porto Alegre, onde a história local é razão de orgulho para todos os munícipes. Lembrei-me também da importância que atribuímos à nossa história, à nossa memória, às nossas tradições. Quando menina, ensinaram-me que todas essas coisas nos dão identidade. Da onde vens? Quem sois? Para onde vais? São perguntas cuja resposta está na identidade social. Se a identidade falta, como construir cidadãos? Como posso amar uma cidade com a qual não me identifico? Foram anos difíceis, de muito trabalho, mas logo aprendi, na prática, que eu estava na "Cidade Trabalho". Em Osasco vila, distrito ou cidade, todas as coisas dão muito trabalho, mas valem a pena. No decorrer dos oito anos de trabalho na cidade, aprendi muito. Aprendi principalmente que nasci professora. É através da compreensão profunda do significado da palavra "educar" que me propus, depois de tanto tempo, a escrever a história "Antônio Agú. O Empresário do Século XX". Não foi fácil sair da linguagem técnica para uma linguagem acessível à maioria das pessoas. Por força da natureza das fontes, em alguns textos, uso expressões jurídicas. Ao formular este trabalho, tive como objetivo principal fazer com que o leitor se localize na evolução urbana da cidade. Todas as formulações seguem o rigor das informações documentais. Todos os comentários e críticas estão alicerçados nas informações fornecidas pelo conjunto de documentos. Sendo assim, o trabalho conta com fontes básicas ou primárias, fontes secundárias e bibliografia. Este cuidado se deve a necessidade de informações documentais de época, para que haja a fidedignidade necessária para qualquer natureza de afirmativa que se diga histórica. Outro cuidado na formulação deste trabalho é na listagem final de todos os documentos. Este cuidado, normal para quem escreve história, tem aqui a intenção de subsidiar os historiadores futuros em suas buscas para a formulação de outros trabalhos. No caso das escrituras públicas, todas são de Cartórios de Notas e Registro Civil do Brasil e da Itália, bem como os Contratos Sociais das empresas incluídas no corpo do trabalho. O esforço para formular este trabalho será recompensado se, ao longo dos próximos anos, conseguirmos dar cidadania às gerações futuras. Mara Danusa 1999 Propriedade Jurídica da Terra [ Topo ]No período colonial, as terras eram dadas por reis portugueses - com base na solicitação dos que já há muito tempo ocupavam as terras requeridas. Só para ilustrar, podemos citar as terras de Afonso Sardinha próximas ao Morro do Jaraguá. Já havia a exploração de ouro nas terras do Jaraguá quando Afonso Sardinha solicitou do rei de Portugal o documento que dava a ele posse jurídica das terras, "sesmarias". No tempo das capitanias hereditárias, os donatários passaram a ter poder de dar terras, "sesmar". Isto é, os donatários podiam ditar aos tabeliães das notas uma escritura de "dada de terras", nas quais cediam determinado espaço de terra para que o "colono" cultivasse. Em seguida, veio o poder das Câmaras Municipais de dar terras dentro de um determinado perímetro ao redor do núcleo principal (3km) da vila, no sentido de fixar um maior número de moradores. Aliado a todas essas primeiras divisões, estavam o que podemos considerar uma subdivisão originária dos inventários e testamentos que dividiam, normalmente em partes menores, as propriedades herdadas. Independente da forma jurídica como as terras eram passadas a seus proprietários, a compra, venda e a partilha de algumas heranças tinham escritura pública lavrada por um tabelião das notas. Por quase trezentos anos, essas divisões ficaram sem controle, ou com duplo controle, ora da igreja, ora dos juizes ordinários. Ou seja, os registros de propriedade das terras eram feitos pela igreja ou, no caso de herança, pelos tabeliães do judicial. Por último, quando a vida no país requeria um certo controle, o rei D. João VI resolveu cobrar impostos pela compra e venda de terras dos proprietários. E principalmente para que houvesse controle seguro no caso de empréstimos financeiros entre pessoas, surgiram os registros de hipotecas. A oficialização dos registros de hipotecas nasceu em 1860. Nos livros desses registros ficavam anotados desde escravos até os animais, que se davam como garantia de devolução do dinheiro tomado emprestado. Nesse período, o que mais valia era a peça escrava. As terras eram um acessório quase sem valor monetário. Os registros de imóveis como hoje conhecemos datam de 1890. Os cartórios de registro nasceram de uma transformação social, política e financeira - mas fundamentaram sua maneira de registrar as propriedades nos registros de hipotecas. A diferença mais importante entre o registro de imóvel e o registro hipoteca está no número que uma propriedade recebia ao ser registrada no cartório. Com base nesse primeiro número, todas as transformações e divisões ocorridas naquele espaço de terras considerado original poderia ser rastreado através dos tempos. Assim, quem estuda formas jurídicas de propriedade de terras no Brasil de hoje, precisa estudar "Dadas de Terras", "Sesmarias", "Inventários e Testamentos", bem como escrituras públicas de diversos cartórios de notas, para afirmar ser aquela propriedade deste ou daquele proprietário em qualquer tempo. Não existe em qualquer tempo da história brasileira propriedade de terra sem que haja um documento para confirmar a posse. No Tempo de João Pinto Ferreira [ Topo ]É através das escrituras lavradas em Cartórios de Notas que se pode saber quem eram os proprietários das terras a partir de 1880. Falando especificamente do km 16 da Estrada de Ferro Sorocabana, podemos dizer também que a compra e venda, partilha e outros instrumentos jurídicos começaram a aparecer em 1881. Com base nas informações colhidas nesses documentos, podemos afirmar que: no km 16 da Ferrovia Sorocabana, criava-se e engordava gado em 1880. E os animais eram vendidos para São Paulo ou Santana de Parnaíba. Além do gado, nos sítios, normalmente de 80 a 120 alqueires, eram plantados milho, mandioca e até cana-de-açúcar. Não era difícil plantar e criar em área não muito extensa e com um ou dois escravos e um engenho de farinha ou de cana. Com esses bens, conseguia-se uma renda de subsistência razoável para a sociedade da época. A grande maioria dos proprietários das terras do km 16, nesse período, tinha também propriedades em outras cidades do interior. É o caso do Dr. JAgúaribe, proprietário do sítio Bussocaba, que plantou um bosque de eucaliptos em suas terras sáfaras, áridas, mas possuía propriedades em São Paulo. Já a família do Dr. Fortunato José de Camargo, proprietária do sítio da Campesina, tinha cercados, pastos e plantações. Porém, seu meio de vida provinha da fazenda em Faxina onde tinha suas cabeças de gado. Até 1890, é muito complicado saber ao certo o que tinha e o que produzia cada propriedade no km 16, até porque as especificações da venda ou hipoteca em cada escritura varia de proprietário para proprietário, já que estes documentos eram escritos através do ditado dos interessados. A legislação não exigia mais que a demarcação clara da localização das terras. Ou seja, as pessoas estavam mais preocupadas em especificar as divisas de suas propriedades e não os bens e meios produtivos que tinham. Para dar um exemplo mais claro, vamos especificar o corpo da escritura de compra e venda que faz Francisco Corrêa Cerpellos a João Pinto Ferreira. "...É senhor e legal possuidor de um sítio denominado Bussucaba, com porto de campo e matas, no distrito da Freguesia da Consolação... O qual sítio confina do seguinte modo: principia no ribeirão Bussucaba e desce pelo mesmo até desAgúar no Rio Tietê, pelo qual desce até onde deságua o Ribeirão João Alves, e segue por este acima até encontrar um valo, que divide com terras de Balthasar Rodrigues de Borba, a terminar na nascente de um pequeno arroio, e pôr este abaixo, e deságua no ribeirão Bussucaba, e pôr este abaixo até o ponto de partida, ..." Essa escritura foi lavrada em 8 de outubro de 1881. Já uma outra escritura de troca entre João Pinto Ferreira e José Manuel Rodrigues é menos elucidativa ainda, quando se trata de determinar qual a parte do todo do sítio Bussucaba que se passou a chamar Ilha de São João. "...Situada na rua dos Gusmões, nº 13 por terreno que fazia parte do sítio Ilha de São João de propriedade de João Pinto Ferreira..." O terreno de José Manuel Rodrigues se denomina "Ilha" e fazia parte do sítio. Como se pode observar através desses dois exemplos, as coisas não são muito fáceis de encontrar quando se está atrás dos véus do passado. Mas uma algo é certo: as coisas estavam mudando rapidamente no km 16 da Sorocabana, tanto quanto na vizinha São Paulo. Questionando um pouco a existência desta "Ilha" dentro do sítio Bussucaba, vamos descobrir que não é de todo inviável a existência geográfica deste local, já que o bairro Rochdale é uma "ilha do Tietê". O interesse de compra, venda ou permuta em qualquer lugar próximo ao rio Tietê era por causa da argila, matéria-prima da olaria. E, de fato, alguns anos depois, nesse local, surge a olaria de João Pinto Ferreira. Foi em janeiro de 1884 que João Pinto Ferreira hipotecou a José Mariano o sítio Bussucaba. Com este dinheiro em mãos, provavelmente comprou tijolos para construir o seu forno caipira e aproveitar a argila que havia no sítio. Era uma forma de garantir a entrada de dinheiro em um dos negócios mais promissores da época: as olarias. Para escoar a sua produção, haviam as barcas, que navegavam no Tietê. Podiam também ser transportadas de carroça pela estrada providencial São Paulo/Itú, atual avenida dos Autonomistas. Ou ainda construir uma plataforma para carregar sua produção em trens, o que, na época, era mais rápido e seguro. Acertar ou não em um determinado negócio é uma questão de experiência, neste ou naquele ramo. E João Pinto Ferreira era um comerciante de secos e molhados, não oleiro ou empreiteiro. Ainda assim, um empresário que investiu bastante no sítio Ilha de São João nos seis anos em que foi proprietário. Muito provavelmente vendeu o sítio por causa das dívidas. Acabou vendendo o sítio todo ao italiano Antônio Agú. Quando o sítio Ilha de São João foi vendido tinha: uma olaria, um moinho de farinha, gado, videiras, banana, um pórtico à margem da estrada de ferro, muitas ferramentas para trabalhar com a terra e muito gado perdido pelo meio do mato. Coisas que João Pinto Ferreira não comprou de Francisco Corrêa Cerpellos. Antônio Agú Antes de Osasco [ Topo ]Nasceu em 25 de outubro de 1845, as nove 9 horas, em Osasco, Itália. Filho primogênito dos lavradores Antônio Giuseppe de Pietro Agú e Domenica Vianco. Batizado por seu tio Dom Michele Vianco, recebeu o nome de Antônio Giuseppe Agú. Não deve ter tido uma infância ou adolescência difícil, pois a crise econômica italiana principiou quando por ocasião do casamento de Antônio Agú com Teresa Maria Benvenutta Chiaretta, isto é, em 1870. Dessa união, nasceu a menina Primitiva Domenica Michela Agú, em 22 de julho de 1872. Conforme informações contidas no histórico da Cúria Metropolitana da cidade de Osasco, na Itália, foi nesse mesmo ano que Antônio Agú migrou para o Brasil. Muitas foram as razões que trouxeram os italianos para as Américas. A Itália se unificou em 1870, e foi resultante desse processo político social as causas para migrar. "O confisco de propriedades por falta de pagamento de impostos, esgotamento da terra, relações pessoais entre trabalhadores e proprietários, crise agrícola, desflorestamento, política comercial, proteção a navegação e crise de disponibilidade alimentícia". O Brasil dessa mesma época tinha outras crises: falta de braços para substituir o trabalho escravo que, após o término do tráfego negreiro e a guerra do ParAgúai, tornaram-se escassos, e falta de mão-de-obra qualificada para trabalhar na indústria nascente. As fronteiras do café se alargavam para o oeste paulista e os braços para tocar as plantações minguavam. Assim, a saída mais viável era a substituição do braço escravo pelo assalariado. Antônio Agú veio para o Brasil no mesmo ano do nascimento de sua filha, e começou a trabalhar na construção da Estrada de Ferro em Capivari. O município de São João do Capivari foi um dos muitos que prosperaram graças às suas terras roxas. Assim, a troca de seu meio de produção não o tornou totalmente industrial, mas ajudou o município a prosperar e seguir a evolução dos tempos. "Neste ano de 1881, a lavoura de café em São João do Capivari está começando, e para proteger esta lavoura das possíveis geadas os terrenos baixos não são cultivados, ali são deixados revestidos de mato virgem abundante e com árvores de preciosa madeira. O único rio que atravessa o município é o Capivarí, os demais riachos e ribeirões servem para irrigar a lavoura. A maior parte da terra roxa ainda deixa espaço para que as terras menos nobres, como as que se extrai argila, os barreiros, o calcário e a brita coabitem em seu espaço..." Com tanta riqueza, o povoado não tardou em virar freguesia, e desta a condição de cidade foram apenas 44 anos de trabalho. Ou seja, Capivari tornou-se cidade em 22 de abril de 1864. Ainda em relação a esse progresso, é preciso somar a chegada da estrada de ferro, em 21 de outubro de 1875, e o engenho central, que começou a ser construído em 1881. Como se pode observar, esta cidade carecia de mão-de-obra especializada e não podia parar seus largos passos em direção ao novo século só pela falta de escravos. Além disso, escravos trabalhavam bem na lavoura, mas não eram hábeis no uso da máquina a vapor para o beneficiamento de grãos de café, algodão, milho e arroz. Também não tinham prática em usar máquina para formatar telhas e tijolos nas olarias. A tecnologia estava ao alcance de qualquer agricultor e, caso quisesse veículos, máquinas e instrumentos para a sua lavoura, era só pedir ao mecânico Henrique de Araújo que ele fabricava em sua ferraria - muito bem montada no centro de São João do Capivari. Eram todos esses avisos de novos tempos, de desenvolvimento, que nem ao menos a cidade de São Paulo tinha, e Antônio Agú residindo nesta cidade do século XX. A narrativa serve para explicar, documentalmente, que o progresso que Antônio Agú deu às suas terras, no km 16 da Sorocabana, não tem nada a ver com Osasco, Itália, mas sim, com São João de Capivari, onde viveu os seus primeiros 14 anos no Brasil. A Itália que Antônio Agú deixou para trás não prometia nada a seus filhos e também não tinha nada a oferecer para o futuro deles. Em relação ao dinheiro para comprar a olaria de João Pinto Ferreira e depois o sítio, também são provenientes da construção do Engenho Central de Capivari. Antônio Agú já tinha uma propriedade na cidade quando resolveu se estabelecer em São Paulo. Esta resolução pode ter sido tomada por muitas razões. Mas, entre essas razões, certamente está o ideal de realizar o sonho de construir um bairro. São Paulo começava sua metamorfose de cidade para a megalópolis que hoje conhecemos. Muito provavelmente, Antônio Agú, que em 1887 tinha 42 anos, já havia aprendido, economizado e amadurecido seus ideais em Capivari. Era tempo de novos rumos, de novas buscas. E ele não foi o único nem o primeiro dos italianos que, entre 1872 e 1886, se mudaram para a cidade de São Paulo, onde a população italiana passou de 8% para 25% do total de habitantes. São Paulo deixava de ser apenas o pólo político da província para se tornar também uma cidade desenvolvida, economicamente vibrante, dinâmica e impaciente. Os braços italianos invadiam os meios de produção. Pequenos comerciantes, artesões, operários, têxteis, engraxates, vendedores ambulantes e oleiros. A cidade já tinha fábricas de tecidos, calçados, gêneros alimentícios e olarias. O panorama urbano era rápido e vertiginosamente mudado. Faltava moradia para a população que, em 1886, era de 8.269 pessoas, e em 1890, passou para 13.337 só no distrito da Consolação. Os apelos de mudanças não eram poucos, e maiores eram os atrativos para sair de São João do Capivari e vir para São Paulo. É interessante observar o comentário de Alice Canabrava em seus estudos sobre as chácaras paulistanas: "...encontra-se também a atividade agrícola ligada a uma produção industrial baseada no solo, a fabricação de telhas e tijolos. Nessas chácaras, a olaria encontra-se associada ao pomar de árvores frutíferas em geral, e até há videira, para a fabricação de vinho...". E a propriedade comprada por Antônio Agú tinha exatamente o perfil de chácara paulistana definida por Alice Canabrava. A raridade está no fato de o sítio Ilha de São João ter sido a primeira propriedade da região do km 16 vendida a um italiano. Aliás, por um bom tempo, até 1902, este foi o único sítio que passou de mãos nacionais para as de estrangeiros. Vizinhos de Antônio Agú entre 1887 e 1909 Os sítios e os vizinhos ao de Antônio Agú eram: Zona Norte - Sítio do Mutinga, com 200 alqueires até 1880, quando foi dividido entre herdeiros; Sítio Taipas, que mais tarde foi vendido à baronesa de Limeira; Sítio Velho Funchal, atual Sítio Paiva Ramos; Sítio do Barreiro, com área que fazia divisa entre os municípios de Osasco e Barueri. Todos esses sítios só tiveram ocupação urbana a partir de 1950/60. Zona Sul - Sítio da Campesina, de propriedade de Fortunato de Camargo; Sítio JAgúaribe, pertencente ao médico, político e intelectual Domingos José JAgúaribe Filho, dono também de vasta porção de terras em Campos do Jordão; Fazenda Carapicuiba, que foi comprada por Delfino Cerqueira, através de empréstimo fornecido pelo banco onde João Brícola era o presidente. Delfino adquiriu esta fazenda dos herdeiros de Licínio de Camargo, que, por sua vez, adquiriu estas mesmas terras de Antônio e Veridiana Prado. O Sítio do Quitaúna, nesse período, era de propriedade de José Mariano Brito, e seu inventário terminou em uma grande briga pela demarcação das terras entre os herdeiros. O vizinho, Coronel Delfino Cerqueira, terminou vendendo a área para o Exército brasileiro, que construiu o Quartel de Quitaúna. Também eram vizinhos de Antônio Agú o Sítio do Rio Pequeno, que deu origem ao bairro de Presidente Altino, loteado pela cerâmica Industrial Osasco, em 1920; Sítio do Dr. Lane, que ficava mais ao sul, próximo ao atual Jardim D'Abril. Cada um destes sítios deu origem a mais de um bairro dos tantos que compõem hoje a cidade de Osasco. Os fatores que dificultaram o loteamento destes sítios para fins urbanos não se limitam à falta de vontade dos proprietários em dividir suas terras, mas também ao pouco interesse imobiliário por elas. A população de Osasco atravessou a década de 40 com 15.258 habitantes. Na década seguinte, passou a ter 43.473, e foi este estouro populacional que desencadeou o processo de loteamento dos sítios vizinhos ao do fundador da "vila". Outro fator relevante para a demora na ocupação populacional está na topografia e na hidrografia destes sítios. Para amainar as dificuldades geográficas, foram necessárias muitas horas de trabalho das máquinas de terraplenarem. Elas foram fundamentais para viabilizar a ocupação urbana de determinados bairros. Sem elas, ficaria ainda mais difícil habitar os morros sem corte e sem arruamento. Antônio Agú no Km 16 da Sorocabana [ Topo ]Como havia feito com José Manuel Rodrigues, João Pinto Ferreira não vendeu toda a propriedade para Antônio Agú. A primeira venda foi em junho de 1887 e dela constam: "...casas ranchos e forno bem como demais terrenos dentro dos limites...". Nessa venda, é importante observar que existe no corpo da escritura a definição do que foi vendido - ao contrário das duas escrituras anteriores de João Pinto Ferreira. Outra observação interessante, está nos limites: "Frente para a linha férrea Sorocabana. Começa no córrego Boy-ssicaba até o rio Tietê, e de aí até a vertente Bagreira, e por ele acima até os terrenos de Manuel José Rodrigues, e por este até o Boy-ssicaba". O nome do córrego Bussocaba, bem como o nome da propriedade, variava de escritura para escritura. Tudo dependia de como era ditado o documento para quem escrevia. Assim, é por dedução que se chega à conclusão de que a área que compunha a venda da olaria era atualmente: de frente da estação ferroviária de Osasco, rua André Rovai, até o córrego Bussocaba, avenida Maria Campos, descendo o córrego Bussocaba até o rio Tietê. Desse ponto, segue até onde hoje está a rua Manuel Rodrigues e sobe até a rua André Rovai, e dessa rua até o córrego Bussocaba, o ponto inicial. A vertente Bagreira está canalizada começando nas proximidades do Mercado Municipal até o Tietê, passando pela linha férrea e seguindo quase paralela à rua Manuel Rodrigues. Há, no entanto, mapas que citam esta vertente como sendo o córrego João Alves. Preferimos a primeira hipótese, já que não sabemos a localização exata da "Ilha" que João Pinto Ferreira trocou com Manuel José Rodrigues. O que se pode afirmar com certeza é que a divisa entre as duas propriedades está onde hoje temos a rua Manuel Rodrigues, em Presidente Altino. Nessa escritura também ficou estabelecido entre vendedor e comprador que: "O comprador fica com o direito de tramitar e fazer tramitar seus empregados a partir da dita olaria, entendido por terras incultas dos vendedores até a estrada geral de rodagem que segue para Itú, devendo ficar salvas as terras lavradias dos vendedores, bem como a estrada particular destes, que fica em frente a dita olaria até o sítio que lhes pertence, denominado Ilha de São João, estrada esta que só poderá ser utilizada pelo comprador, seus filhos e empregados em caso de força maior". Pela força da proibição de não passar pela estrada particular dos moradores do Sítio Ilha de São João, deduzimos que a rua que hoje conhecemos como Primitiva Vianco já existia. E que, para ter acesso à estrada de rodagem e não destruir as terras cultivadas pelo proprietário, muito provavelmente Antônio Agú tivesse, nesse primeiro momento, aberto a sua estrada - que seria a atual rua Antônio Agú. Uma segunda cláusula importante é aquela em que toda a responsabilidade sobre o pórtico, que ficava em frente a olaria, passou para Antônio Agú. No entanto, João Pinto Ferreira ficava com o direito de enviar e receber mercadorias e tudo o mais relativo ao sítio, nesse mesmo pórtico. Caso o comprador quisesse melhorar ou aumentar este acesso ao transporte ferroviário, os vendedores teriam garantido o direito de receber e enviar mercadorias. É importante que se saiba que poucas são as escrituras, pelo menos dos cinco primeiros cartórios de notas de São Paulo, que têm a definição de bens, terras e utensílios claramente descritas como as desta escritura. A Revolução Industrial na Europa já tinha mais de um século. No Brasil, lutava-se para mostrar que o processo industrial, além de viável, era o caminho para o próximo século. Não era pensamento de todos os agricultores latifundiários que o futuro produtivo estava na indústria. Por isso, nesse período, muitos brasileiros construíram fabriquetas e terminaram por vendê-las aos estrangeiros. Sete meses após a venda da olaria, o Sítio Ilha de São João foi vendido ao mesmo comprador. Nessa escritura, foi revelada a razão que levou João Pinto Ferreira a vender todos os seus bens do km 16 da Sorocabana em menos de um ano. No texto desse documento, ficou quitada a hipoteca do vendedor com José Mariano. Ou seja, entre 1884 e 1888, os investimentos de João Pinto Ferreira não deram o retorno esperado e terminaram ocasionando a venda de tudo. Antônio Agú adquiriu, com a compra do Sítio Ilha de São João: "um vinhedo com cerca de trinta mil pés de vinha, algumas centenas de uvas, árvores frutíferas, bambus, grande plantação de bananeiras, uma casa à margem da estrada de rodagem, ranchos pintados, casa em frente a dita casa da fábrica de farinha, com engenho movido a água, suas provisões e mais outras casas em diversos pontos". Limites das terras adquiridas: "...Tomando-se a linha férrea Sorocabana do km 16, seguindo o arroio Boy-cicaba acima, até encontrar o valo que divide com terras e campos do Dr. Domingos José Nogueira JAgúaribe Filho e por esse valo acima até o arroio João Alves, e por este arroio abaixo até a linha férrea Sorocabana, aproximadamente no km 18, e aí pela mesma linha, até encontrar de novo o arroio Boy-cicaba". A medida citada na escritura é um tanto relativa, pois, naquela época, ninguém mandava medir os sítios para vender ou comprar. E mesmo em alqueires, teríamos que saber ao certo onde estava o valo do doutor JAgúaribe para dizer "é aqui ou alí". Além disso, nessa época, as pessoas também entravam em juízo, reivindicando pequenos trechos ou valos mais para cima ou mais para baixo. Foi o que aconteceu entre o Antônio Agú e o doutor JAgúaribe. Assim, chegamos à conclusão que o valo deveria ser onde hoje fica o entroncamento das ruas Narciso Sturlini, Analice Sakatauskas e avenida Bussocaba, e deste ponto em linha reta até córrego João Alves. Desta forma, os bairros que se originaram do Sítio Ilha de São João são: Centro, Jardim Agú, Vila Granada e parte do Bela Vista. A escritura pública de 1888 dá a medida de 236 alqueires. Esse mesmo documento estabelece que ficam pertencendo ao comprador "...os moares, utensílios de lavoura, gado constante de dezessete bois mansos de carro, incluindo alguns fugitivos, cinco vacas e terneiros, cinco animais cavalares, isto é, duas bestas, um cavalo, duas éguas, três carros de boi, uma carroça". Pelo volume adquirido, podemos deduzir que Antônio Agú empregou bem os seus três contos de réis. Mas nada disso iria fazer com que nascesse Osasco, se não fosse a sua determinação, trabalho, perspicácia empresarial e o tino comercial para aproveitar as profundas transformações sócio-políticas e econômicas que o Brasil passou a viver entre 1888 e 1900. (Colocar mapa de João Pinto Ferreira (1881/1886) Antônio Agú (1887/1894) A Carta de Alforria [ Topo ]No período colonial, as terras eram dadas por reis portugueses - com base na solicitação dos que já há muito tempo ocupavam as terras requeridas. Só para ilustrar, podemos citar as terras de Afonso Sardinha próximas ao Morro do Jaraguá. Já havia a exploração de ouro nas terras do Jaraguá quando Afonso Sardinha solicitou do rei de Portugal o documento que dava a ele posse jurídica das terras, "sesmarias". No tempo das capitanias hereditárias, os donatários passaram a ter poder de dar terras, "sesmar". Isto é, os donatários podiam ditar aos tabeliães das notas uma escritura de "dada de terras", nas quais cediam determinado espaço de terra para que o "colono" cultivasse. Em seguida, veio o poder das Câmaras Municipais de dar terras dentro de um determinado perímetro ao redor do núcleo principal (3km) da vila, no sentido de fixar um maior número de moradores. Aliado a todas essas primeiras divisões, estavam o que podemos considerar uma subdivisão originária dos inventários e testamentos que dividiam, normalmente em partes menores, as propriedades herdadas. Independente da forma jurídica como as terras eram passadas a seus proprietários, a compra, venda e a partilha de algumas heranças tinham escritura pública lavrada por um tabelião das notas. Por quase trezentos anos, essas divisões ficaram sem controle, ou com duplo controle, ora da igreja, ora dos juizes ordinários. Ou seja, os registros de propriedade das terras eram feitos pela igreja ou, no caso de herança, pelos tabeliães do judicial. Por último, quando a vida no país requeria um certo controle, o rei D. João VI resolveu cobrar impostos pela compra e venda de terras dos proprietários. E principalmente para que houvesse controle seguro no caso de empréstimos financeiros entre pessoas, surgiram os registros de hipotecas. A oficialização dos registros de hipotecas nasceu em 1860. Nos livros desses registros ficavam anotados desde escravos até os animais, que se davam como garantia de devolução do dinheiro tomado emprestado. Nesse período, o que mais valia era a peça escrava. As terras eram um acessório quase sem valor monetário. Os registros de imóveis como hoje conhecemos datam de 1890. Os cartórios de registro nasceram de uma transformação social, política e financeira - mas fundamentaram sua maneira de registrar as propriedades nos registros de hipotecas. A diferença mais importante entre o registro de imóvel e o registro hipoteca está no número que uma propriedade recebia ao ser registrada no cartório. Com base nesse primeiro número, todas as transformações e divisões ocorridas naquele espaço de terras considerado original poderia ser rastreado através dos tempos. Assim, quem estuda formas jurídicas de propriedade de terras no Brasil de hoje, precisa estudar "Dadas de Terras", "Sesmarias", "Inventários e Testamentos", bem como escrituras públicas de diversos cartórios de notas, para afirmar ser aquela propriedade deste ou daquele proprietário em qualquer tempo. Não existe em qualquer tempo da história brasileira propriedade de terra sem que haja um documento para confirmar a posse. Construindo a Estação [ Topo ]É inegável o progresso econômico que as vias férreas trouxeram para toda a economia brasileira. São Paulo se tornou a "locomotiva brasileira", através da associação entre cafezais e vias férreas. Esse era o meio de transporte mais rápido, barato e eficiente para escoar a produção, agrícola ou industrial, dos lugares mais distantes para o Porto de Santos. Para transportar a sua produção, o km 16 da Ferrovia Sorocabana tinha, em 1887, um pórtico. Uma estação de trem determinava um ponto constante de carga e descarga, tanto de passageiros como de mercadoria, e assim se tornava parada obrigatória dos trens. Em sua análise anual de necessidades para prosseguir seu desenvolvimento, o departamento de tráfego da Companhia Sorocabana exigia uma estação intermediária entre São Paulo e Barueri. Essa necessidade foi apontada no Relatório da Superintendência de Tráfego no ano de 1894. Esses relatórios eram apresentados ao presidente, que os levava aos acionistas a cada ano. Porém, os dados e sugestões apresentados eram baseados nas atividades e necessidades do ano anterior, ou seja 1893. Em agosto de 1895, o superintendência declarou aberta uma estação no km 16. Nesse mesmo ano, em setembro, o relatório apresentado aos acionistas da Cia. União Sorocabana e Ituana continha os serviços realizados: "Foram estabelecidos dois desvios: um km 3 da linha Porto Martins à São Manuel, de 100m, e outro, no km 16, de 250m, na estação Osasco, para os trens de carga". Assim, em 1895, a estação de Osasco já era uma realidade. Mas um ano antes, isto é, em agosto de 1894, na escritura da venda de terras que Antônio Agú e sua mulher fizeram a Comorati Ciriaco, a localização da área era clara: "um terreno nesta Comarca, na Estação de Osasco, Estrada de Ferro Sorocabana". Portanto, o ano correto da construção física da estação é 1894. Porém, foi em 1895 que ela se tornou oficialmente doada à Cia Sorocabana. Em 1896, ela foi ampliada por seu construtor, Antônio Agú, passando a fazer parte do projeto original uma sala de visitantes. A data de construção da estação está ligada à polêmica da data de fundação da Vila Osasco. Com base nos documentos mencionados acima e por desconhecer outros mais precisos, estabelecemos como sendo o ano de doação da estação o ano da fundação da vila: 1895. E data da escritura de compra e venda do terreno de Comorati Ciriaco é 3 de agosto. Portanto, a "Vila Osasco foi fundada em 3 agosto de 1895". (Colocar Gravura comparativa entre o Pórtico (1885) e a Estação (1894) Moradias da estação de Osasco [ Topo ]A ocupação urbana surge em Osasco após a construção da estação ferroviária. Isso não significa que antes da construção da estação não houvesse casas e moradores. Como foi dito anteriormente, o Sítio Ilha de São João tinha casas espalhadas nos seus limites. Mas ocupação urbana pressupõe ordenamento de ruas, moradias organizadas dentro de um determinado espaço, comércio, serviços e indústrias. E some-se a essas a principal característica, que é a compra de pequenos lotes de terra por diversas pessoas. Todas as propriedades do km 16 da Ferrovia Sorocabana eram sítios. E o primeiro sítio a tomar rumo em direção à formação urbana foi o de Antônio Agú - ou seja, o Sítio Ilha de São João. A primeira característica da formação urbana da "Vila" foi através das vilas operárias. Aliás, Osasco tem 70 dos seus 100 anos como subúrbio industrial e operário. Com isso, o leitor deve entender que o simples fato de ter Osasco se emancipado de São Paulo não significou troca radical na sua formação humana, econômica, social e cultural. Se hoje a cidade tem grandes indústrias metal-mecânica e multinacionais de diversos ramos, respeitando as diferenças tecnológicas das nove décadas que separam o início da "Vila" dos dias atuais, o mesmo aconteceu no início do povoamento, quando havia três grandes indústrias. Uma delas, a Fabrica Tecidos Enrico Dell'Áqua, tornou-se uma multinacional em 1899. A grande maioria dos pequenos proprietários dos lotes adquiridos de Antônio Agú o faziam para ter um pedaço de terra para moradia. Outros investiam em instalação de pequenas fábricas, como foi o caso da fábrica de massas dos Irmãos Gianetti & Cia. Já para o banqueiro Giovanni Brícola, no entanto, comprar terras em Osasco era uma forma de investir. Giovanni Brícola deixou de ser cidadão italiano em 1888, quando se naturalizou brasileiro. Em 1900, tornou-se representante do Banco Nápoles em São Paulo e, com isso, conseguiu formar uma respeitável fortuna. Dentre os bens deixados pelo banqueiro, estão o sítio e os lotes adquiridos em Osasco, tanto de Antônio Agú como de outros italianos que quiseram sair do Brasil ou dividir suas heranças - como ocorreu com os herdeiros de Marco de Capri. Uma característica marcante desse período, em relação à nacionalidade dos proprietários dos lotes da estação de Osasco, é que 99% eram italianos. É claro que isso tem uma série de razões, mas a facilidade de pagamento e a proximidade do trabalho eram os principais fatores para que as famílias se fixassem nas terras de Osasco. Entre 1898 e 1899, ocorreu um período com maior número de escrituras de compra e venda lavradas. Foi como se todos tivessem terminado de pagar seus lotes naqueles dois anos. Uma das características desses lotes que a cidade de Osasco, em sua divisão urbana central, carrega ainda hoje são as quadras e ruas irregulares. Isso ocorre porque, na época, o centro de Osasco era um enorme alagado. E essa condição natural fazia com que os moradores escolhessem lugares menos encharcados para construir suas casas. No escolhe daqui, afasta dali, os lotes ficaram irregulares em suas formas geométricas. Não havia projeto de loteamento antes da venda ou da construção da moradia. Primeiro se fazia a casa, depois é que se media e demarcava o lote. O único mapa de uma proposta de loteamento foi feito pelo arquiteto Júlio Saltini, entre 1907 ou 1908. Mas isso nunca chegou a ser colocado em prática. A falta de planejamento urbano atrapalhou apenas a simetria dos lotes, mas não a preocupação de ter calçadas, de definir ruas e avenidas e de dar nomes as ruas, avenidas e largos. As calçadas tinham dois metros de largura. As ruas Primitiva Vianco, Antônio Agú e João Batista já existiam e iam do Largo da Estação até a estrada Provincial São Paulo/Itu. Houve também quem ganhasse o seu pedacinho de chão num sorteio do jornal (Colocar mapa de João Pinto Ferreira(1881 - 1886) Antônio Agú (1887-1894) O Fanfulla. É o caso de Antônio Duva, que ganhou um terreno com frente para a rua da Estação (10m de frente e 50m de fundos), tendo Pedro e José Micheli como vizinhos de um lado, e Antônio Agú de outro. A baixa densidade populacional da estação de Osasco em seus anos de fundação viabilizavam um espaço maior de terras por proprietário. Mas isso não quer dizer, no entanto, que todos os lotes tivessem 500m² de área. Pelo contrário, uma boa parte dos habitantes da Vila Osasco viviam nas vilas operárias, construídas pelas fábricas onde trabalhavam. Possuir um terreno e ter uma casa, mesmo naquele tempo, era uma conquista econômica e social. Foi a partir da catástrofe da febre amarela, que visitou São Paulo em 1892, que as vilas operárias passaram a ter normas técnicas para a sua construção. Como Osasco passou a ter vilas após 1895 (e nesse período a parte das terras da Vila Osasco integravam o distrito da Consolação), o que era lei para São Paulo também valia para a vila. Para entender como eram as vilas operárias, nos servimos do relatório de Theodoro Sampaio enviado à Câmara e transformado em lei em 1893. "Quanto ao solo: deve ser bem enxuto, fazendo-se-lhe a drenagem prévia e se o regularizando convenientemente. Quanto ao esgoto: deve ser preferido de circulação contínua, o sistema de tout a l'egout, fazendo-se, para esse fim, uma rede especial para a vila, se esta ficar além dos limites da cidade, ou ligando-a à rede urbana existente, se ficar intra-muros". Como já foi dito, Osasco era um subúrbio operário, logo, sem acesso a qualquer natureza de esgoto ou tratamento de água. "Quanto ao abastecimento de água, empregar-se-á sempre água canalizada, utilizando-se sempre de um manancial vizinho, o qual deverá influir muito sobre a escolha do local para a vila". Em São Paulo, as habitações operárias não estavam necessariamente ligadas a determinada indústria, como acontecia em Osasco. A do Frigorífico Continental era a mais bonita e organizada, e também com melhores condições de higiene. A mais precária era a da Cerâmica Industrial Osasco ou Sensaud de Lavaud & Cia. Somente no período de distrito, após 1918, é que Delfino Cerqueira construiu uma vila operária, bem no centro de Osasco - onde hoje está a galeria Fuad Auada. O centro de Osasco, no período de Antônio Agú, desenvolveu-se como São Paulo, a passos largos. Enquanto os vizinhos continuavam a ter grandes extensões de terras, magras plantações e algumas cabeças de gado, o fundador de Osasco tinha os mesmos bens que seus vizinhos. A diferença foi a preocupação que se tornou o seu objetivo de vida: transformar seu sítio em um bairro. Assim, fez tudo o que pôde para viabilizar o desenvolvimento do seu espaço: um armazém de carga e descarga de mercadorias contínuo ao prédio da estação; Correios; comércios diversos; fábricas, cooperativas de abastecimento e muitas casas. A Primeira Indústria de Osasco [ Topo ]O Brasil teve sua revolução industrial financiada pelo sucesso internacional das lavouras de café. Muitos foram os fazendeiros cafeicultores que diversificaram seus investimentos através do processo industrial. Um bom exemplo era a moderníssima indústria cerâmica do cafeicultor Sampaio Peixoto, que mereceu matéria do jornal Gazeta de Campinas e visita do Imperador Dom Pedro II. Escreveu a Gazeta de Campinas em 3.4.1870: "A olaria, em grande escala, ocupa toda ela um espaço de 27.500 palmos quadrados. Duas são as casas para secar tijolos. Esta contém 7 prateleiras e 4 corredores de trilhos de ferro, que, partindo da máquina, vão até a primeira casa de secar, passando pela frente de 40 fornos colocados entre as casas, e onde se queimam por vez 70 mil tijolos. Por toda a olaria ramificam-se 4.192 palmos de trilhos de ferro que giram 9 `vagões'. As casas acomodam 160 mil tijolos. A máquina faz por hora 1.500 tijolos. O barro vem de um tablado sobreposto para onde é conduzido em `vagão' que galga um plano inclinado desde os depósito, por meio de trilhos de ferro e de um cabo, cujo governo, em maquinismo adequado, se prende ao motor geral. Um grande canal d'água caminha para um tanque circular de tijolo e cimento hidráulico, de onde divide-se para a roda que move as máquinas e para um moinho de fubá. O pessoal empregado nesta parte do estabelecimento é de 29 indivíduos." A descrição da fábrica de Sampaio Peixoto serve para ilustrar a tecnologia em indústria cerâmica que havia na época, e que Antônio Agú, naturalmente como pessoa do ramo, conhecia. A região de Campinas foi uma das mais bem-sucedidas na economia cafeeira. A cidade de Capivari fica a 54 km de Campinas e, a partir de 1875, já tinha ligação ferroviária por Jundiaí. Com toda esta comodidade de transporte, não é difícil supor que Antônio Agú conhecia as tecnologias que o levariam a tornar sua olaria em uma indústria cerâmica. Não é novidade na vida brasileira as crises econômicas. Ontem ou hoje, a questão das crises pelas quais passa ou passou o País terminam sempre interferindo na vida e nos investimentos privados. Os "tempos bicudos" para a economia nacional desse período se fizeram entre 1896 e 1901. "A crise cafeeira reduziu drasticamente os investimentos industriais, principalmente nos dois últimos anos da década de 90. A crise no setor agrícola exportador de café reduziu a receita de exportações e a renda real da economia, a partir de 1896. Além disso, a política de deflação implementada pelo governo a partir de fins de 1898 agravou a crise e provocou uma das mais severas depressões da história da economia brasileira. Em praticamente todos os setores da indústria de transformação, os investimentos foram severamente cortados". Suzigan,Wilson-Indústria Brasileira Origem e Desenvolvimento Quando a crise econômica chega, a saída é sempre procurar novas idéias e novos produtos. Assim, mesmo sendo dono de uma fábrica de tijolos e telhas (que eram os produtos mais promissores no mercado consumidor da época), o fundador de Osasco sofria, como todos os outros brasileiros, com a falta de capital de giro - dinheiro. Isso o forçou a buscar alternativas para expandir e diversificar sua produção. A construção de taipa-de-pilão cedia lugar rapidamente para a alvenaria, mas isso não pagava as dívidas e os custos para que Antônio Agú mantivesse seus negócios funcionando. Já havia vendido diversos lotes de terra no sistema de suaves prestações mensais, o que não era usual na época. Com dificuldade, pagava os empréstimos no Banco União de São Paulo e a senhora Laura Clementina de Souza Mursa (sua outra credora), mas a saída definitiva para sua crise econômica particular ainda não havia chegado. Um homem esperto e ágil nos negócios não poderia se deixar abater por uma crise econômica. A saída encontrada foi arrendar a sua cerâmica para um engenheiro Evaristhe Sensaud de Lavaud. O Barão era fidalgo francês e a vida de guerras na Europa o tornou cidadão do mundo, sempre em busca de jazidas cerâmicas ou de alguém que precisassem de sua apurada técnica e pesquisa. Este engenheiro tinha patentes para fazer um tipo especial de calçamento de rua. As patentes Duprat eram extremamente cobiçadas por qualquer empresário que quisesse investir a médio prazo. Para fabricar esse tipo de calçamento e aumentar a produção já existente, a olaria de Antônio Agú precisava de um forno de fogo contínuo. Indústria Cerâmica Brasileira no Princípio [ Topo ]Ao leitor, pode ficar a dúvida sobre a importância da indústria cerâmica nacional para aquela época. Assim, transcrevemos os comentários de Antônio Francisco Bandeira Júnior, que viveu e analisou as indústrias paulistas em 1900. "A importância da indústria cerâmica, apesar dos impostos federais prejudicarem-na facilitando a introdução de similares estrangeiros, ainda assim, tem crescido de modo considerável, tornando-se pela qualidade da argila e pela perfeição do fabrico superior às de Marseille e de outras procedências européias e norte-americanas. As telhas, os tijolos, os canos para serviço de água, esgoto e higiene, de Vila Prudente e de Osasco, impõem-se pela superioridade e qualidade da produção, a que o Congresso Nacional, com relação a São Paulo, pelo menos, dificulte quando possível a importação desses produtos. Nas mesmas condições, estão os ladrilhos, mosaicos e objetos de uso doméstico, de serviço de higiene de estabelecimentos cerâmicos da ordem dos que se acham na Villa Prudente e em Osasco. A Villa Prudente era uma localidade deserta, criada pelos Irmãos Falchi em menos de dez anos. É uma vila fabril, cheia de vida e de trabalho, ornada de belos edifícios, com comércio local relativamente desenvolvido. Osasco é uma das mais importantes estações da Companhia Sorocabana, pelo progresso que lhe imprime a fábrica fundada pelo hábil industrial, o engenheiro Sensaud de Lavaud, que além de objetos iguais aos de Bordallo, em Portugal, fábrica tudo que importamos para serviços de higiene e construções". Os negócios iam bem para o Barão de Lavaud, até que resolveu comprar, em 1900, um bonito terreno de 2.543 m², de frente para a rua Primitiva Vianco e de fundo para a rua Dell'Ácqua - atual Antônio Agú. Nesse mesmo ano, o barão resolve também aceitar em hipoteca o sítio do Rio Pequeno, depois loteado pela própria cerâmica, dando origem ao bairro de Presidente Altino. Quando os sócios do barão perceberam as suas transações imobiliárias, houve uma mudança radical na sociedade, que ficou expressa em um segundo contrato social. Lavra-se um novo contrato social da firma Sensaud de Lavaud & Cia., e neste, o barão perde muitas de suas regalias. Nela, consta: "A administração dos negócios da sociedade será feita de comum acordo entre todos os sócios, ficando contudo, particularmente a cargo do sócio Sensaud de Lavaud, a fabricação dos diversos produtos, e a cargo dos sócios Joseph Levy Freres & Companhia a venda dos mesmos e todas as questões financeiras, não podendo, porém, nenhuma operação de importância superior a dez contos de réis ser efetuada sem que todas as partes contratantes estejam de perfeito acordo". Metade dos poderes que o barão tinha na sociedade foi por água abaixo. Mas o pior ainda estava por vir: "Para socorrer as suas despesas particulares, a sociedade concede a Evaristhe Sensaud de Lavaud a quantia mensal de um conto de réis, que será levada a débito "despesas geraes" da sociedade, quantia esta que não poderá ser excedida sob pretexto algum...". Os sócios do barão passaram a ter o prêmio de 10% ao ano sobre o capital investido, enquanto o juro anterior era de 8%. Seu capital social é reduzido à metade, isto é, 25 contos de réis. E as patentes Duprat passam a ser propriedade exclusiva da sociedade. O nome Sensaud de Lavaud & Cia. passa a ser proibido nas cartas de fiança, garantias e endosso estranhos à sociedade, sob pena de nulidade do documento. Resultado: o barão deixa de ser um sócio confortável de 50% para ter apenas 20% da sociedade. Estava ele também proibido de se interessar ou de se associar a qualquer outro negócio estranho ao da sociedade. Todas estas restrições só seriam revistas em um novo contrato, em 1904. O Primeiro Contrato da Sensaud de Lavaud & Cia [ Topo ]O contrato social desta firma deu entrada na Junta Comercial em 27 de maio de 1898. A empresa era composta por Sensaud de Lavaud, Joseph Levy Freres, Hermann Levy e Arthur Kalm, todos franceses. O objetivo da empresa era fabricar o granito artificial para calçadas e também explorar as patentes Duprat e as de invenção de Sensaud de Lavaud. Todas essas patentes de invenção deveriam ser ensinadas ao filho de Sensaud de Lavaud e aos demais sócios. Toda a parte técnica era de competência do engenheiro cerâmico Evaristhe, bem como o gerenciamento da fábrica, que, por sua vez, entrava no negócio com trinta contos de réis. O valor foi imediatamente entregue ao sócio Sensaud de Lavaud. O Barão de Lavaud teria o salário de diretor de quinhentos mil réis, ficando com o direito à lenha para seus serviços domésticos, assim como iluminação. A Light só trouxe energia elétrica para São Paulo a partir de 1900, quando foi inaugurada a Usina Hidroelétrica Edgar de Souza. Antes, a luz era de gerador movido a vapor. As patentes trazidas pelo barão passavam a ser de propriedade da sociedade para toda a América do Sul, e seu valor estava avaliado em cinqüenta contos de réis. Dos lucros da sociedade, corresponderia ao Barão 65%. A partilha desses lucros se faria em 31 de dezembro de cada ano. Dos 30 contos de réis fornecidos pelos sócios à sociedade, pagaria 8% de juros ao ano. Em caso de morte do barão, quem poderia substituí-lo era o seu filho Dimitri Sensaud de Lavaud. Caso os sócios quisessem dispensar a presença do filho, deveriam pagar à viúva e ao herdeiro o valor total das patentes trazida por Lavaud para a sociedade - isto é, cinqüenta contos de réis. Outra quantia a ser paga aos herdeiros do barão eram os lucros da empresa no ano de seu falecimento. Uma figura jurídica interessante instituída através do primeiro Código Comercial brasileiro e que também se fazia presente nos contratos comerciais e industriais dessa época, era a do árbitro. Parágrafo Único: "...e qualquer dúvida que possa surgir entre os sócios não será nunca resolvida por decisão. Cada uma das partes designará um árbitro, os quais, na falta de chegarem a um acordo, nomearão um terceiro, com voz deliberativa e que julgará definitivamente e sem apelação". Era perfeitamente legal chamar pessoas leigas em legislação, mas do ramo e de bom senso, para decidir dúvidas nas sociedades. Após ter o barão conseguido formar a sociedade e através dela financiamento para as melhorias que julgou necessárias, o arrendatário Antônio Agú fez lavrar um novo contrato de prorrogação do arrendamento. O documento, escrito em setembro de 1899, exigia a construção de mais um forno de fogo contínuo, em troca da prorrogação de prazo do arrendamento por mais cinco anos. O segundo forno deveria ter 20 repartições, ser construído em 6 meses e, no final do contrato, ficar pertencendo ao locador, sem indenização alguma. É claro que semelhante loucura não foi feita. Dinheiro vai, dinheiro vem, e as coisas para Antônio Agú não saíram tão baratas como apontavam as escrituras anteriores. Ou então, no ano de 1900, os ex-sócios do fundador descobriram que tinham mais direitos financeiros do que lhes havia pago o sócio capitalista. Assim, os primeiros sócios de Antônio Agú (Antônio Vianco, genro e primo do primeiro, e Giacomo Fornasari) lavraram uma escritura pública de destrato comercial. Este contrato de sociedade foi lavrado em 1º de agosto de 1894, em escritura particular, e tinha por objetivo: "...sociedade agrícola e industrial, para o fim de tratar do plantio de videiras, fabricação de tijolos, criação de gado e outros místeres na fazenda denominada "Villa Osasco", cita na Estação de Osasco. Retiraram-se da sociedade os sócios Antônio Vianco e Giacomo Fornasari, que receberam de Antônio Agú a quantia de dez contos de réis. A Competência Vence a Intolerância [ Topo ]Mesmo com todo esse prejuízo, o barão não se intimidou em sua qualidade de produção. A ex-olaria de Antônio Agú tornara-se uma Fábrica de Materiais de Água e Esgoto. Nela, fabricava-se tijolos para calçamento, sistema Sensaud (calçamento do futuro), manilhas para encanamentos, sistema privilegiado para água e esgoto, vasos sanitários, juntas e curvas, além de tijolos refratários e de todas as classes e dimensões para construção. Também se produzia telhas, no sistema nacional de Bourgogne e francesas. Em todos os segmentos da produção industrial, a tecnologia particular do engenheiro cerâmico de Lavaud terminou se impondo aos concorrentes pela altíssima qualidade. Ainda que os sócios não concordassem com seus gastos, o barão tinha na sua fábrica (enquanto esteve como responsável técnico pela produção) a melhor tecnologia disponível. Assim, as máquinas que a indústria tinha em Osasco eram: um motor de 80 cavalos, uma caldeira de 150 cavalos, um amassador para 60m³ de terra, um rebolo para fazer telhas e tijolos, 4 máquinas para fazer tubos, uma máquina hidráulica, 2 máquinas para raspar os produtos, uma máquina manual para telhas, 2 prensas de fricção para telhas francesas de Osasco, 1 moinho para preparar argila aos paralelepípedos do futuro, 2 amassadeiras para tijolos refratários, 4 prensas manuais para fazer tijolos e 7 tornos para limpar tubos. A grande vedete do sistema produtivo e o grande desafio vencido por Lavaud foi a construção do forno de fogo contínuo. A indústria teve também três fornos semi-contínuos e 5 intermitentes ligados a 4 chaminés, que completavam o complexo industrial. Havia ainda depósito para argila e artigos prontos, além de uma seção especial para secagem. Todo esse complexo industrial era movido por 150 operários e mantido em 8.000 m² de área construída. A Cia Sensaud de Lavaud se Impõe [ Topo ]Todo a dívida contraída pelo Barão Evaristhe no momento da formação da sociedade, somada à produção que ele deu a empresa, foi recompensada no terceiro contrato, efetuado em 25 de fevereiro de 1905. Nesse ato, a firma passa a ser de Evaristhe Sensaud de Lavaud e de Herman Levy, em partes iguais. Os outros sócios, Joseph Levy e Henry Levy, retiraram-se da sociedade, deixando aos dois o dever de saldar a dívida de trinta contos de réis que ainda restava com os antigos sócios. Para aumentar o capital existente, os dois sócios tinham de investir mais 10 contos de réis cada um. Ao barão, continuava cabendo o dever de fabricar os produtos e cuidar da fábrica em Osasco. A Herman Levy competia a comercialização da produção, bem como a contabilidade da empresa. Os dois sócios passavam a ter uma retirada mensal de 700 mil réis, o que significava 30% a menos que o 1 conto anteriormente estabelecido. Mas valia a pena, afinal os dois já haviam superado a maior crise. Além disso, o café passava, em 1905, a tomar fôlego e, por conseguinte, os investimentos no desenvolvimento industrial começavam a ser retomados. O importante para a cerâmica, no entanto, foi a retomada dos investimentos públicos por parte do Estado. Isso fez com que a economia e a tecnologia da empresa se sobressaíssem no mercado interno e externo. A cerâmica Sensaud de Lavaud & Cia. era uma forte concorrente no mercado interno. Na verdade, havia apenas três indústrias com condições de vender tubos de barro vidrados, "manilhas", necessários ao serviço de canalização de água e esgoto de todo o Estado: a Cia. Mechanica e Importadora de São Paulo S/A, a Cia. Progresso Paulista e a Sensaud de Lavaud & Cia. Inegavelmente, a proposta do Estado envolvia uma produção compatível com a das três empresas concorrentes. Mas nenhuma delas, sozinha, conseguiria levar a bom termo o contrato com o governo do Estado de São Paulo. Assim, os três industriais se unem através de um contrato industrial e comercial. Para traduzir este contrato em terminologia dos dias atuais, poderíamos dizer que ele instituía juridicamente o primeiro "looby" industrial brasileiro, pois as indústrias passam a ser fornecedoras exclusivas de seus produtos para o Estado de São Paulo e seus Municípios. A Companhia Mechanica e Importadora de São Paulo, cujo sócio-gerente chamava-se Alexandre Siciliano, passava a gerenciar os negócios da "União". Ficou estabelecido neste contrato que as três empresas: "não poderiam fornecer material de barro vidrado para esgoto, a não ser por intermédio da Companhia Mechanica e Importadora de São Paulo, destinado a qualquer ponto do Estado de São Paulo, sob multa por peça fornecida e mais cinqüenta contos de réis". Não poderiam as empresas também fornecer para qualquer outro Estado da República, salvo Bahia (que fornecia à Cia. Progresso) e Paraná (que fornecia à firma Sensaud de Lavaud & Cia.). Cada uma das empresas tinha o dever de fabricar um terço do material pedido pelo Estado ou pelos Municípios - tanto do material de primeira como o de segunda qualidade. A qualidade do material era estabelecida por peritos do Estado. O Estado e os Municípios comprariam o material com a redução no preço de mercado de 45% (material de primeira) e de 70% (material de segunda). No entanto, se essa redução não deixasse margem de lucro, o desconto passaria para 40% e 65%, respectivamente. Lucros ou prejuízos eram rateados entre as três empresas, sendo que 50% era da Cia. Mechanica e 25% das demais. Se por dois balanços consecutivos as empresas não tivessem lucro, nesse momento, do segundo balanço, o contrato com o Estado seria rescindido ou modificado. O contrato entre as empresas deveria ter a duração de 10 anos. A "União" passou a dominar o mercado de barro vidrado. Não havia como produzir mais barato os produtos que só as três forneciam. Assim, o lucro da "União" foi enorme o que possibilitou a formação de um cartel cerâmico Resultado: a "União" começou a comprar os concorrentes. A primeira foi a Cia. Progredidora, que ficava no bairro da Água Branca e custou 30 contos de réis. O administrador da "União" Alexandre Ciciliano foi um dos grandes empresários da primeira revolução industrial brasileira. Assim, o lucro da "União" foi enorme, e a ditadura do cartel formado pelas três empresas também. Todos os italianos tinham negócios entre si e buscavam patrícios para se associar e negociar. Mas entre eles, o de maior sucesso em todos os ramos de produção foi, sem dúvida, Alexandre Ciciliano. A "União" foi um sucesso para as três empresas. Todas tiveram seus lucros com o contrato. Com a Sensaud de Lavaud & Cia., não foi diferente. A prosperidade financeira e tecnológica da cerâmica alicerçou para o herdeiro do barão, Dimitri Sensaud de Lavaud, um futuro de pioneirismos, até mesmo em seus esportes favoritos. O Desafio de Um Homem [ Topo ]"Houve recuperação dos níveis de investimento na indústria brasileira a partir de 1902. Foram implementadas políticas monetárias e fiscais expansionistas, especialmente após 1906. O estoque da moeda aumentou rapidamente até 1912, principalmente devido à emissão de moeda pelo fundo de estabilização cambial, instituído em fins de 1906. O governo federal fez crescentes despesas para a construção de estradas de ferro, equipamentos de portos, melhoramentos urbanos etc". Dentro desse quadro macroeconômico mais alentador, a Sensaud de Lavaud & Cia., em 1909, ou seja, quatro anos depois de passar a fazer parte da "União", tinha uma situação financeira estável e confortável. Tanto assim, que o barão, mesmo a contragosto, concorda em financiar o caro sonho do filho, de construir, no Brasil, um avião. Santos Dumont voou com seu Demoiselle em 1906, em Paris. Aliado a este feito histórico mundial, havia toda uma vanguarda metal-mecânica na indústria francesa, que utilizava a tecnologia dos automóveis para o então "sport" da aviação. Um esporte extremamente caro para qualquer esportista, já que, em qualquer lugar do mundo, o aviador deveria dispor de no mínimo de um avião, um hangar, um mecânico, além de um automóvel para transportar seu aparelho, bem como todo o equipamento para reparo da máquina. Se em nível mundial as dificuldades não eram poucas, no Brasil, com uma indústria metal-mecânica nascente, era bem pior. Assim, ao iniciar seu projeto, Dimitri teve de vencer os seguintes obstáculos: 1. Estudar livros técnicos importados da França e Inglaterra; 2. Formular o projeto da máquina e do esqueleto, de formas e maneiras que seus mecânicos e carpinteiro entendessem; 3. Fiscalizar, a construção de seu projeto. Isto quer dizer que um incontável número de vezes teve de percorrer os 16 km que separam Osasco de São Paulo, para verificar a realização de sua encomenda. O arcabouço de madeira foi feito nas oficinas de Carlos Remedi, na Ponte Pequena, e as peças do motor, nas oficinas Graig & Martins, em frente a Estação Júlio Prestes da Estrada de Ferro Sorocabana. 4. Construiu seu hangar pouco abaixo da casa onde morava seu pai, Chalé Brícola. Para montar as poucas peças e fazer o motor, pediu a ajuda do auxiliar de mecânica Lourenço Pelegatti, em Osasco. As peças do motor foram feitas por Sílvio Curtarello, Francisco Kuhn e Augusto Fonseca, conforme se vê na fotografia do jornal O Estado de São Paulo de 14 de outubro de 1909. Dimitri começa a fazer testes em seu aparelho no velódromo construído em 1901, ao lado de sua casa, na rua Primitiva Vianco, próximo ao largo da Estação. Ele conclui que o velódromo é pequeno e a superfície inadequada para sua proposta de aviação. Assim, manda construir uma rampa de 70 metros de comprimento ao lado do seu hangar, próximo ao Chalé Brícola. Em outubro de 1909, os jornais de São Paulo começam a dar notas sobre o seu experimento. Dentre elas, lê-se em O Estado de São Paulo do dia 11 a visita que Dimitri recebeu de Washington Luís, secretário da Justiça e Segurança Pública, quando este estava de passagem para Santana de Parnaíba. Em matéria do mesmo jornal, no dia 14, fala-se da equipe técnica que acompanha o projeto de Dimitri. Nela, observa-se as primeiras especificações do motor: "O motor de Lavaud nº 2 tem 28 a 32 H.P., seis cilindros rotativos, 25kg de peso, 1200 rotações por minuto. Motor do tipo "Anzani", com bobinas Ford, sistema elétrico Ford, cárter e válvulas na cabeça do pistão, que contrabalança com pesos para não saírem do lugar. Escapamento comandado, velas comuns, emissão no centro do virabrequim". Toda a imprensa tecia comentários elogiosos sobre o intento de Dimitri. O Correio Paulistano de 3 de outubro fala a respeito da originalidade na concepção mecânica e refere-se ao aeroplano como "...um pássaro com asas e direção, dada pela combinação dos movimentos da asa e da calda. Outra característica do monoplano `De Lavaud' é a do motor. Até agora, não se tem conseguido nos motores empregados na Europa menos de 1kg de peso por cavalo de força; assim, seja um motor de 60 cavalos Banhard, Levassor, Darrac, Anzani, Wesseley etc, não tem menos de 60kg de peso. Pois, segundo espera o Sr. Dimitri de Lavaud, o seu motor de 25 cavalos, também de seu invento, com cilindros rotativos representa uma economia de peso de 20% mais que os outros. Supomos que, em final de novembro, o Sr. Dimitri efetive seu intento, pois interrompeu seus testes de vôo para poder consertar algumas peças do motor que, por sua delicadeza, exigiam maior atenção (cilindro)". Além de projetar, Dimitri teve de superar o desafio de ensinar mecânica de aviação a alguns mecânicos de automóveis, pois a inexistência da indústria automobilística nacional criava dificuldades de todo gênero à sua iniciativa. Dimitri observou por 2 horas seguidas, durante 4 dias, o funcionamento do motor. Através dessa observação, ele venceu um dos maiores desafios da aviação mundial, ou seja, obter o máximo de força motriz com o mínimo de peso. O Arcabouço de Madeira [ Topo ]Como seria de fato a descrição técnica do avião construído por Dimitri? Esta é a pergunta feita por muitos curiosos, interessados em reproduzir o modelo construído pelo habilidoso inventor, que começou sua carreira por esporte. Assim, pareceu interessante colocar o maior número de especificações técnicas possíveis do invento para facilitar a compreensão da construção do aparelho. Todas as especificações estão transcritas dos jornais da época, que foram fornecidas por Dimitri, já que seu invento era "notícia". As formas do esqueleto e da envergadura do aparelho levam Dimitri a optar pelo tipo "Bleriot", com as seguintes diferenças: "As asas da frente são móveis, servindo de leme de profundidade. Todos os movimentos do aparelho são determinados por duas alavancas, uma de cada lado do centro da direção e formando eixo com o sarrafo superior do esqueleto. As asas de trás são fixas. O esqueleto, tem a forma de um fuso, onde estão presos asas, motor, leme e reservatório de essência, combustível, e o óleo. As asas são feitas de pequenos sarrafos, cobertos com uma tela de cretone envernizada, distendidas por fios de aço ligados ao meio das mesmas no centro do aparelho a uma altura de 75cm. As asas da frente têm uma superfície total de 18m², ambas são côncavas para baixo formando um raio de 20º. Desta forma, o aparelho forma um triângulo com base de 2,20m e 1,80m na extremidade. O movimento do leme é o lugar ocupado pelo aeronauta. A hélice feita de um pedaço inteiriço de jequitibá; é um belo trabalho do Sr. Antônio Demosso, tem um diâmetro de 2,10m, com largura de 30cm e um passo de 1,20m/s. Todas as partes essenciais do monoplano repousam sobre três rodas, reforçadas, de bicicleta, munidas de pneumático, que sustentam 12 quilos por metro quadrado. O centro de gravidade está a 3,50m do centro de direção (onde fica o aeronauta) e 3,80m de centro de gravidade do aparelho. A essência e o óleo estão no mesmo reservatório de latão que se liga com o motor por meio de tubos de cobre. Esta parte descrita tem um peso total de 165kg" O Motor de Lavaud nº 1 [ Topo ]Peças que compõem de Lavaud nº 1: Motor tipo "Anzani", com bobinas Ford, sistema elétrico Ford, cartes e válvulas na cabeça do pistão, que contrabalançavam com pesos para não saírem do lugar. Escapamento, comando, velas comuns, emissão no centro do virabrequim. Consideramos como correta as informações escritas no jornal O Estado de São Paulo - 8.1.1910, assim como sendo o seu fabricante o Sr. Antônio de Demosso. Sobre o motor De Lavaud descrito comparativamente acima foi aceita como correta a descrição fornecida pelo auxiliar mecânico Loureço Pelegatti, em matéria publicada pelo jornal A Gazeta, de 10.4.1954, tendo em vista que as comparações feitas com o jornal O Estado de São Paulo de 10.10.1909, são extremamente confusas e de difícil entendimento. A desconfiança se deve ao desafio a ser enfrentado por Dimitri, que era obter o máximo de força motriz com o mínimo de peso. Sendo assim, 35 H.P. para 38kg é mais peso do que cavalo de força, o que destrói a proposta inicial. Mas sabemos que, partir destes e de outros estudos, Dimitri, no decorrer de sua vida, pôde desenvolver outros inventos vinculados à aviação, que produziram tecnologias que possibilitaram um desenvolvimento mais satisfatório. Foi também Dimitri quem inventou e patenteou a hélice de passo variável dos aviões bimotores e quadrimotores utilizados na segunda Guerra Mundial. O Dia do Primeiro Vôo em Osasco [ Topo ]"Dias de expectativa emotiva e neurótica antecederam ao grande dia. O avião pronto, só falta voar. 5h20 - De manhã, uma última experiência era feita ainda no hangar, confirmando a regularidade do motor. 5h45 - O elegante aparelho estava numa rampa situada ao lado da residência do Sr. de Lavaud, pronto para voar; 5h50 - Foi dada marcha ao motor. O arrojado aviador, com um sorriso calmo e atento ao regulador de essência e à hélice, que era apenas uma sombra escura a sua frente, dá o sinal de largar o aparelho. Os que seguravam se afastavam, deixando livre a bela máquina, que partiu veloz em vôo ascensional. Os operários ali residentes e que formam a população do pitoresco subúrbio, quando se dispunham a ir para as oficinas, foram surpreendidos pelas trepidações de um motor, que corria espaço a fora. Com olhos maravilhados, assistiam por fim ao belo espetáculo, que desde algum tempo esperavam". É desta forma que os jornais Correio Paulistano e o O Estado de São Paulo descrevem o dia do primeiro vôo da América do Sul. E continuam: "Desaparecia aos poucos a densa neblina que os primeiros raios de sol iam dissipando, pondo a descoberto o lindo azul do céu osasquense. A natureza despertava e os alegres rumores matutinos quebravam de espaço em espaço o doce silêncio dos campos de Osasco. De todos os lados, aparece gente e o campo logo se enche de curiosos, que tiveram a felicidade de assistir àquele espetáculo. O aparelho deslizou sobre o terreno da rampa 70 metros, elevando-se suavemente a uma altura entre 3 a 4 metros, percorrendo 103 metros após a sua ascensão. Quando ia ultrapassar esse percurso, o motor parou repentinamente e, devido a esse incidente, o aparelho teve uma decida brusca, ocasionando estrago em suas rodas. Os espectadores acudiram de todos os lados. Toda aquela gente vinha correndo, cheia de ansiedade, pensando ter havido algum desastre com o aeronauta. Foram vidas vividas em poucos minutos. Ninguém falava, nem antes nem depois. Quando Dimitri saiu da `nascelle' (local onde senta o aviador) vitorioso é que houve a explosão de aplausos e de entusiasmo. Dimitri, insatisfeito, dava ao povo explicações técnicas: `O motor falhou porque tem 6 pistões. Concluo que, se o número de pistões fosse ímpar, o movimento seria contínuo e não haveria interrupções". Dimitri foi apenas mais um dos muitos aviadores da sua época que foram vencidos pelas dificuldades mecânicas. O motor era um terrível traidor dos aeronautas, e já havia proporcionado a Lathan um inesperado banho em pleno Canal da Mancha, pois a refrigeração a ar de seu aparelho esquentava demais, o que terminou por prender os pistões aos cilindros. Por isso, o motor parou. No caso de Lathan, custou-lhe a primazia da chegada a Inglaterra, que ficou com Louis Bleriot. A grande diferença entre estes dois aviadores europeus estava no mecânico Anzani. Um tipo excêntrico, que costumava acordar seu patrão, Bleriot, a tiros de revólver para o ar e andava de motocicleta movida a hélice de avião na traseira. Os jornais da época estimularam Dimitri a continuar com seu intento, noticiando: "Este ligeiro contratempo, no entanto, não impedirá ao persistente, corajoso, arrojado e dedicado aeronauta de continuar suas experiências, já que o estrago da máquina é de fácil conserto e, nos primeiros dias da semana próxima, o aeroplano será exposto na inauguração do teatro Politeama". Dimitri e o seu De Lavaud no Politeama [ Topo ]Após o vôo em Osasco, e sendo este o "sport" da época, Dimitri expôs seu aeroplano no teatro da moda, o Politeama. No ato de abertura da exposição do aeroplano, Dimitri explicou as questões técnicas do avião e recepcionou seus convidados com champanhe francesa. Nesse acontecimento social, compareceram os "sportmans" (desportistas da aviação) da época, como Gastão de Almeida, Antônio Prado Júnior e Ricardo Vilela. Na festa da aviação, também compareceu o governador do Estado e seus secretários. Nesse dia, o aviador Gastão de Almeida combinou com Dimitri um vôo conjunto, cada um com seu aparelho, no Prado da Moóca. O encontro seria em 28 de janeiro de 1910. As raias do hipódromo, de uma curva a outra, seriam a pista de pouso e decolagem das engenhocas. Trezentos metros de comprimento era tudo o que tinham os aviadores para fazer suas aeronaves levantarem do chão. Os aviadores combinaram com o público, através dos jornais, que perto do hangar haveria um mastro, e que nele seriam içados os seguintes sinais: - Bandeira branca: o aviador vai voar. - Bandeira branca e vermelha: o aviador Agúarda o vento amainar. - Bandeira vermelha: os ventos são superiores a 8 metros por segundo, o que impossibilita o vôo. No dia combinado, apenas Gastão de Almeida fez um belo espetáculo. Dimitri teve problemas com o carburador de sua aeronave. Outro fato marcante da vida de Dimitri ocorreu após o rali aéreo, promovido pelo aeroclube paulistano. Era dezembro de 1910, e o aeroclube abriu inscrições para o "raid-aéreo", que deveria ser de 1 km em linha reta a 10m de altura. Se inscreveram para a façanha os aviadores italianos Eros Ruggerone e Júlio Picollo. Como o azar nos primeiros passos da aviação não acompanhava apenas Dimitri, o aviador Ruggerone torna-se o vencedor do "raid-aéreo" pois Júlio Picollo faleceu em virtude do acidente ocorrido com sua máquina. E este aeroplano acidentado com Picollo é comprado por Dimitri. Aproveitando o seu motor, surge o segundo avião, chamado pela empresa De Lavaud nº 2. É com este novo aeroplano que Dimitri voa no Parque Antártica. Voando no Parque Antártica [ Topo ]Passada a vontade de voar, que só podia se tornar realidade nos verões, Dimitri arrenda a cerâmica do pai. O arrendamento não se estendia até a produção de materiais a serem fornecidos ao Estado, bem como não permitia a venda de areia ou barro, mas custava um conto e oitenta réis por mês. O valor era razoavelmente alto para a época, mas nem por isso Dimitri deixou de arrendar a cerâmica, principalmente porque não pretendia perder seu estreito contato com a mecânica, que a partir da construção do São Paulo (nome dado ao avião que voou em Osasco), passou a fazer parte de sua vida. O trabalho na cerâmica alternado com as experiência mecânica ajudaram Dimitri a manter-se ocupado no ano de seu grande feito, 1910. Em dezembro desse ano, foi marcado pelo aeroclube paulistano um "raid-aéreo". Os aeronautas concorrentes eram Eros Ruggerone e Julio Pícollo. O vencedor da disputa foi Ruggerone. Pícollo acabou falecendo em virtude de acidente com sua máquina. Para ajudar a família do aviador falecido, Dimitri comprou o avião avariado. Quando as reformas e consertos do avião de Júlio Pícollo ficaram prontas, Dimitri combinou com o público, através dos jornais, de fazer a exibição no Parque Antártica, em 19 de fevereiro de 1911, das 14 às 17hs. Ele voltou a ser notícia nos jornais, com a seguinte manchete: "Uma ascensão com monoplano sistema "Bleriot" importado da Europa" No dia anterior ao marcado, Dimitri realizou suas últimas experiências já no Parque Antártica. O objetivo de seus experimentos de vôo, dessa vez, eram verificar a estabilidade de sua máquina. Devido ao excelente resultado conseguido no ensaio, o aviador teve absoluta convicção de que o seu intento correria com pleno êxito. Desde o dia anterior, os paulistanos, curiosos, já iam nos bondes da Ligth para o Parque Antártica. Este seria o primeiro vôo público de Dimitri. Os jornais da época voltaram a narrar o feito: "O tempo não estava de todo mau, apenas um pouquinho de vento mais do que seria de se desejar. O povo, que conhece dessas coisas desde que Ruggerone lhe veio proporcionar algumas noções de aviação na hora marcada, já se acumulava nas dependências do Parque, notando-se principalmente nas arquibancadas uma numerosa e seleta assistência". Estava hasteada num dos ângulos a bandeira vermelha e branca. Isto significava que o aviador estava esperando o vento amainar para subir. "E de fato, o vento que soprava, embora não fosse muito forte, poderia motivar qualquer insucesso, tanto que vinha justamente de onde era menos favorável ao início do vôo. Mais ou menos às 15 horas, o avião foi retirado do barracão e levado para um dos extremos da raia, pista de vôo, ponto de partida. Foram feitos os preparativos para a ascensão. O povo estava impaciente. Agitava-se por toda a parte, sem que mostrasse estar zangado com a demora..." Bandeira Branca- o aviador vai subir. Dimitri sentou no local do piloto e pediu a seu ajudante que colocasse o motor em funcionamento. Em meio a grande expectativa, o público viu o aparelho avançar nas suas quatro rodas pelo gramado da raia, trepidando, rugindo, tentando elevar-se. No meio da pista, só restava-lhe levantar, já que estava com o máximo de velocidade no motor. Houve, não há dúvida, um aparelho no ar, porém, não era aquilo que desejava o aviador nem o público. Cinco minutos depois, a ânsia do público era muito maior e o aparelho rolava de novo pelo gramado, em meio ao qual, de repente, se elevava a uma altura de cinco metros do chão. Nós, os espectadores, nesse momento, tínhamos ao nosso lado um outro aviador, que dentro em pouco o público de São Paulo conhecerá, e que disse: -Vai cair! Precisamente quando o aeroplano, tendo deixado o chão, se aproximava da arquibancada, indo direto para o bambual que existe ao fundo do campo, de súbito, faz uma rápida ascensão e galga essa mata verde-negra. Todos ansiaram da maneira como o aparelho cortava o céu. Sensaud ia ser vítima de um desastre, o monoplano ia com certeza dar de encontro no bambual para esfacelar-se. No entanto, o aviador, com extraordinária perícia e admirável sangue-frio, quando apenas faltava 2 metros para cair no emaranhado de bambus, faz o aparelho subir quase verticalmente, sem que uma só peça tocasse nas mais altas folhas do obstáculo". Mas quando se voa em baixa altitude, é fácil perceber os choques que a máquina recebe ao passar por sobre uma árvore ou edifício e que determinam mudanças bruscas das correntes atmosféricas. "Após este ato de perícia e reflexo do aviador, a máquina e o piloto desaparecem atrás do bambual". Dimitri, que neste período era chamado pelo segundo nome (Sr. Sensaud) pela imprensa, ouviu os aplausos dos atentos espectadores de seu feito. "Mas coisa esquisita, os mecânicos que se achavam no local corriam na direção que, segundos antes, o aeronauta havia atravessado com fantástica velocidade. Que havia? E o povo, eterno curioso, começou a correr também, e teve o desgosto de ver, no terreno montanhoso que existia atrás da arquibancada do parque, o aparelho estendido e gravemente avariado. Sensaud, que apenas teve uma insignificante luxação do pé, foi logo rodeado por mecânicos e curiosos. - Que houve? Perguntaram quase todos. - O motor fez um "ratat" e a máquina caiu... (Fazer um ratat é o mesmo que dar uma rápida parada). Continuou sua explicação: - O motor, por um desarranjo imprevisto, depois de haver transposto o bambual, susteve de repente o movimento, fazendo com que o aparelho descesse, tocando o solo. O monoplano apenas tocou o solo montanhoso e foi de encontro a um monte, onde se danificou consideravelmente". Após o feito do Parque Antártica, Dimitri deixou de voar, a pedido de sua mulher, Berth. Mas seu fascínio pela mecânica estava caracterizado e suas buscas claramente definidas para suas invenções e descobertas dentro da física e da mecânica. A família Sensaud de Lavaud vendeu sua parte na Cia. Cerâmica, em 9 de fevereiro de 1912, por oitocentos contos de réis. Porém, suas marcas de desenvolvimento e tecnologia nos dão conta de que seu trabalho não foi em vão. Ao contrário, quando a família se retirou da indústria cerâmica Sensaud de Lauvaud & Cia., a empresa tinha todo um aparato fabril, que viabilizava a sua tecnologia, tornando-se, assim, uma das maiores do ramo. Não há como deixar de perceber a importância social da empresa para a época. Dimitri e o Barão construíram suas histórias de vida através do trabalho desenvolvido nos seus quatorze anos de "Vila Osasco". A primazia do primeiro vôo da América do Sul, conquistada por Dimitri, é apenas a resultante dos muitos passos que estes dois homens deram no sentido de construir uma empresa que estivesse viva aquém de suas vidas. A Agricultura nas Terras de Antônio Agú [ Topo ]O fato de o fundador ter comprado terras que não eram pródigas como as terras roxas de Capivari não significou deixar de plantar. A quantidade de vinhas e árvores frutíferas que passou a ter em suas terras provam isso. Mas onde eram plantadas essas parreiras e árvores frutíferas? Para começar a entender, devemos lembrar que o solo de Osasco é composto em sua grande maioria de argila, areia e planícies avuliais, ou seja, em termos de agricultura, estamos diante de solo pobre para cultura de café e cana-de-açúcar. Com isso, estamos explicando porque a agricultura e a pecuária não deram certo nas terras de Osasco. A plantação não podia ser muito longe da casa de moradia do sítio, que, como já vimos, ficava próximo da rua Particular (atual Primitiva Vianco) com a estrada de rodagem São Paulo/Itu (atual avenida dos Autonomistas). Assim, as plantações ficavam no atual Jardim Agú, onde as águas do córrego Bussocaba, na cheia, molhavam e traziam seus restos orgânicos para adubar. Por causa dessa plantação, ficou proibido, em contrato, que a fábrica de papel represasse as águas do córrego Bussocaba abaixo da estrada de rodagem. As plantações não se estendiam por todo o centro de Osasco que hoje conhecemos, porque boa parte dessa região era, na verdade, um grande brejo - parte das planícies aluvionais do rio Tietê que seguem em direção a atual avenida Marechal Rondon. A ocupação urbana é que foi empurrando o rio para o restrito leito que hoje conhecemos. No período de Antônio Agú, no entanto, essa questão do brejo no largo e no centro de Osasco era tão grave que o fundador da vila resolveu plantar eucaliptos para drenar um pouco a enorme quantidade de água que ficava empoçada no período das chuvas. Os eucaliptos foram plantados na rua Primitiva Vianco e alguns na rua Antônio Agú e João Batista. Assim, parece-nos importante provar que o município, a vila ou o distrito de Osasco não apresentavam, em nenhum momento de sua história, vocação para outra natureza de ocupação que não fosse o urbano industrial. As Agroindústrias do Fundador [ Topo ]As vinhas das terras da Ilha de São João existiram por muito tempo. Entre 1885 e 1916, pelo menos. Mas entre plantar parreiras e ter uma produção de vinhos e licores, existe uma larga distância no processo produtivo. Em 1896, Antônio Agú arrenda a Antônio Duquenoy a fábrica de vinhos e licores que construiu em terras vizinhas as da cerâmica. O prédio, que deveria abrigar os maquinismos da fábrica de licores e vinhos, não estava concluído e o arrendamento já estava feito. Um terreno de cinco metros de frente e 24 de fundos. Nele, estavam sendo construídos quatro quartos, para a moradia de empregados, e o resto do espaço ficou reservado para a instalação de três tinas cobertas, filtros com seus pertences e uma prensa mecânica para a fabricação de vinho. Duzentos réis foi o valor do aluguel cobrado pelo fundador de seu arrendatário. E toda a produção de uvas retiradas das parreiras do locador ia para a fábrica de vinhos de A. Duquenoy. O preço das uvas a ser pago pelo arrendador era o do mercado do domingo seguinte e de comum acordo entre locador e locatário. Caso houvesse divergência de valor, o preço seria determinado por dois árbitros vizinhos, também plantadores de uva. O preço da uva, no entanto, seria pago em dinheiro, a cada quinze dias. Esse primeiro contrato vigorou até 1898. Em 1906, Antônio Agú arrendou as videiras para Nunciante Piccagli. Nesse segundo momento, o prazo de validade era de 10 anos. O aluguel era de pagamento anual no valor de três contos de réis e não implicava apenas nas vinhas, mas, também, na cultura de amoras, pereiras e outras árvores frutíferas. O locador podia tirar as folhas das amoreiras apenas uma vez por ano e negociá-las a preço de mercado. Devido à proximidade da área arrendada e a moradia do locador, ficou estabelecido nesse mesmo contrato que era proibido a realização de jogos de bola nas ruas principais das plantações de árvores frutíferas. Aliás, são as alamedas das plantações de árvores frutíferas na Chácara Agú (bairro que hoje tem o nome de Jardim Agú) que dão a simetria das ruas do bairro. Outra particularidade do contrato que denota a mudança dos tempos, ou pelo menos mudança na forma de negociar do fundador, é a presença do fiador Sixto Rangini. As indústrias que trabalhavam com produtos cultivados tinham mais simpatia dos congressistas da época do que as de bens de consumo, Isto fez com que a indústria agrícola tivesse subsídios fiscais antes de qualquer outro ramo industrial. Indústrias Enrico Dell' Ácqua [ Topo ]A indústria de tecidos foi a primeira a surgir no Brasil. Dentre as mais importantes fábricas paulistas do ramo, estava a de tecidos de algodão Enrico Dell'Ácqua & Cia. Essa indústria, que começou com uma loja de tecidos no Centro de São Paulo, em 1888, tornou-se um parque fabril em São Roque, e teve filiais em Osasco e Buenos Aires. A fábrica principal em São Roque tinha 3.600 m² de área construída, em dois andares. Esse mesmo local hoje abriga uma escola profissionalizante do Sesi. A fachada e as instalações originais foram restauradas dando lugar a escola. Igual sorte não teve a sua filial de Osasco, que terminou por ceder espaço a um shopping center. A fábrica Dell'Ácqua de São Roque tinha uma represa com 4000 m² de área inundada e uma queda de água de 30m de altura, o que produzia uma força de 120 cavalos para impulsionar os teares do começo deste século. A luz era produzida por um dínamo, movido pela turbina de força com 24 cavalos para 4000 velas. Essa indústria empregava 400 pessoas, a grande maioria estrangeiros, e produzia brim, riscado, toalhas felpudas e simples. Já em Osasco, a produção era desenvolvida por 130 operários, que teciam chalés, cobertores e tapetes. Em outubro de 1890, é criada a Sociedade Italiana de Exportação Enrico Dell'Ácqua, formada em comandita por ações, com sede em Milão e filiais no Brasil e na Argentina. Os negócios foram tão prósperos para este industrial italiano que, em 1899, ele aumentou o capital estrangeiro nas fábricas e diversificou seus meios de produção. Entre os novos meios de ganho dessa sociedade no Brasil, estava a venda de ouro para operações comerciais. O objetivo social da empresa, estabelecida por lei, era a exportação de produtos italianos para a América do Sul e a exploração das indústrias de tecelagem do Brasil e Argentina. O capital social, em 1899, passou a ser 10 milhões de liras. Nesse ano, também o sócio fundador Enrico Dell'Ácqua passou a viver emMilão, deixando a gerência dos negócios no Brasil para Giacomo Gripa e Cesare Bossi, e na Argentina, para Jorge Geniu e Pier Luigi Caldirela. Sturlini Matarazzo & Cia [ Topo ]A Sturlini Matarazzo & Cia era a fábrica de papel e papelão que se instalou nas terras de Antônio Agú a partir de 1902. Na verdade documental, essa indústria de papel e papelão teve início ainda no período de João Pinto Ferreira, entre 1882 e 1888. Esta afirmativa se deve ao fato de ter o fundador da Villa Osasco dado uma fábrica de papel e papelão como garantia hipotecária à sua credora, dona Laura Clementina de Souza Mursa em 1892. Mesmo dando o bem como garantia da dívida, a fábrica pertencia a João Pinto Ferreira e não a Antônio Agú. Tanto, que o primeiro vendeu a fábrica à família Sturlini antes da família comprar as terras do fundador. No ano de 1892, a família Sturlini era proprietária de uma fábrica de caixas de papelão na ladeira de Santa Efigênia, nº 11, na Capital. Os Sturlini, como tantos outros italianos, vieram do nada e conseguiram fazer dinheiro através de sua dedicação ao trabalho. Narciso e Mariana Sturlini perderam uma filha com um ano de idade, em 1888, e a enterraram graças a caridade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Mas o tempo e o trabalho fizeram desta mais uma das famílias de empresários que se instalaram na Villa Osasco. Em 4 de abril de 1902, Mariana e Narciso Sturlini compraram um terreno de 160 mil metros quadrados no km 16 da Sorocabana, tendo como vizinhos: "terrenos do vendedor, Antônio Agú, de Guidone & Lippi e do outro lado do rio Bussocaba o Dr. Fortunato de Camargo". A venda foi feita a prazo. Os compradores tinham três anos para pagar a dívida de 25 contos de réis ao vendedor. E por força dessa escritura ficavam com o direito de se utilizar das águas do tanque que servia para o gasto da fábrica de papel pertencente aos compradores, "tendo outrora servido a fábrica que pertenceu a João Pinto Ferreira". Outro direito dos compradores era utilizar-se da estrada que passava pelas terras de Guidonni & Lippi e que dava acesso a estrada provincial São Paulo/Itu. A única proibição existente nesse contrato era a de alterar o nivelamento das águas naturais do córrego Bussocaba até a estrada provincial. Essa proibição era mais do que justificada, já que a alteração do nivelamento de água causaria alagamento de áreas cultivadas por seus vizinhos. Na venda a prazo do terreno, Antônio Agú ficou com a hipoteca "dos maquinismos e dos edifícios da fábrica de papel". Sendo assim, nada mais justo do que ser consultado juridicamente no momento em que a firma Sturlini Matarazzo & Cia precisava de um outro empréstimo, para compra de um novo secador de papel para sua indústria. Este segundo empréstimo foi feito por Francisco Matarazzo & Cia. Um contrato diferente, pois, ao invés de dinheiro devolvido ao credor, a importância seria paga em mercadoria produzida pela indústria. Isto é, em papel de embrulho, que seria comercializado pela F. Matarazzo & Cia. O mínimo que poderia ser depositado pela indústria de papel era duzentos e cinqüenta fardos, com peso de 60kg cada um. Para produzir essa quantidade de papel de embrulho comumente usado pelo comércio, a Indústria Sturlini & Matarazzo teria que ter o seu segundo secador. Foi para pagar o novo maquinário que o Comendador Francisco Matarazzo autorizou a abertura de crédito de 25 contos de réis em dinheiro a seu irmão Nicolau Matarazzo. Como a garantia do negócio era dada pelos maquinismos e prédios da fábrica de Osasco, que já estavam hipotecados a Antônio Agú, foi necessário que o primeiro depositário cedesse ao segundo, Francisco Matarazzo, os bens da Sturlini Matarazzo & Cia. No momento da assinatura desse contrato, a fábrica de papel e papelão tinha: casas de tijolos cobertas de telhas, barracões, puxados, casa de máquinas com um sobrado anexo, uma vila operária com diversas casas e um forno para tijolos. Até a data de assinatura do contrato, Narciso Sturlini não tinha quitado sua dívida com Antônio Agú e, ainda assim, o vendedor autorizou o fechamento do negócio com uma terceira pessoa, usando os bens que lhe haviam sido hipotecados em primeiro lugar. Isso quer dizer que, se Narciso Sturlini não conseguisse pagar todas as suas dívidas, o resultado da venda da indústria Sturlini & Matarazzo seria dividido meio a meio entre seus credores. A sorte é que a avaliação dos bens da Sturlini Matarazzo & Cia somavam um total de cinqüenta contos de réis, que, por sua vez, correspondia a um pouco mais do valor total dos dois empréstimos. Isso porque, os juros da compra do terreno correspondia a 12% ao ano pagáveis a cada dois meses. Os juros do empréstimo de Francisco Matarazzo era de 9% ao ano e a comissão de intermediação a ser paga ao fornecedor do papel correspondia a 7% do valor da venda - o que a grosso modo se pode dizer que correspondia a um juro real de apenas 2%, a serem pagos a cada dois meses. Assim, graças a boa vontade de Antônio Agú, foi possível o desenvolvimento da Indústria de Papel e Papelão Sturlini Matarazzo & Cia. A Vila Osasco em 25 de Janeiro de 1909 [ Topo ]O jornal O Estado de S. Paulo de 1909 escreveu: "Um bairro longínquo da Capital, onde estão instaladas as grandes oficinas de cerâmica da firma Sensaud de Lavaud & Cia.... ". Nesse ano, Osasco já era um bairro operário de São Paulo. Nele, habitavam mais de trezentas famílias, ligadas a atividades industriais e comerciais desenvolvidas por Antônio Agú e os demais empresários. O bairro operário contava com um restaurante, de propriedade de Emílio Barbiani; comércio de gêneros alimentícios de José Lisboa; loja de fazendas de Guiseppe Miguel; fábrica de cerveja de Gioni & Miguel; louças e produtos alimentícios dos Irmãos Gianetti, que era uma fábrica de massas e padaria, localizada no Largo da Estação, onde hoje está a loja Marisa; a Cooperativa de Produtos Alimentícios da Cerâmica Sensaud de Lavaud, que ficava na rua da estação, e as olarias dos Irmãos Rovay, onde anteriormente era a olaria de José Manuel Rodrigues ou Olaria São João. Havia ainda os seguintes comércios: José Carletto, com gêneros alimentícios; César Mischer, também com gêneros alimentícios; o sapateiro João Tonto, o funileiro Cheso Baptiste e a quitanda de Aliere Giovanni. As primeiras ruas já estavam ocupadas com moradias. Primitiva Vianco, Enrico Dell'Ácqua (atual Antônio Agú), Giovanni Brícola (atual rua João Batista), o largo dos Operários (onde hoje está a praça Marques de Herval), a rua da Estação, entre tantas outras que tiveram seus nomes mudados com o passar dos anos. Quando o fundador da vila Osasco faleceu, em 25 de janeiro de 1909, foi irreversível a condição de bairro operário conquistado pelos esforços e pelo trabalho dos muitos italianos que trabalharam para a realização do sonho de Antônio Agú: criar um bairro. Reconhecendo os méritos do idealizador e fundador do bairro, os moradores de Osasco acompanharam o corpo da estação de Osasco até o Cemitério da Consolação. Antes de falecer, Antônio Agú teve a preocupação de deixar seu testamento lavrado de próprio punho, no qual estabelecia a área para a construção da igreja, do seminário e do cemitério, bem como fazia de sua neta Gosephina Vianco Enrico a herdeira de sua terça. Fontes Básicas Notariais 2º /72/71v - 04/06/1887 3º /20/1v - 22/03/1888 3º/22/95v - 12/04/1889 4º/4A/100v - 02/06/1893 4º/11/71 - 05/11/1896 4º/18/83 - 24/11/1897 4º/20/57v - 04/05/1898 4º/21/42v - 22/06/1898 4º/21/17v - 20/04/1898 4º/24/75v - 09/09/1899 4º/23/73 - 16/06/1899 4º/23/74v - 19/06/1899 4º/25/95v - 06/03/1900 4º/25/86v - 17/04/1900 4º/25/97 - 04/05/1900 3º/80/80v - 11/07/1905 3º/54/18v - 30/01/1908 3º/69/33v - 29/04/1910 3º/69/47v - 31/05/1910 3º/79/12v - 13/03/1911 2º/.../... - 08/01/1912 3º/80/33v - 05/02/1912 3º/80/33 - 05/02/1912 3º/80/34v a 38v - 06/02/1912 3º/80/38v - 09/02/1912 "Memoria sobre o município de São João de Capiravy da provincia de São Paulo elaborada para a Biblioteca Nacional". Capivari , 22/maio/1881 Fontes Secundárias Fonte: www.osasco.com.br |